[texto de Mariana Colombino]

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Slow food, slow fashion, slow beauty, low-consumerism, mindfulness, mindful eating, armário cápsula, permacultura, terapias holísticas. Ufa! São tantas novas nomenclaturas, que a cabeça dá até um nó. Mas, acima de tudo, elas inspiram mudança, um movimento de avanço da sociedade. Um passo a frente que diz muito sobre como queremos construir o futuro das próximas gerações.

Tempos atrás (mais precisamente na época de nossos pais), o verbo TER era sinônimo de felicidade. Casa, apartamento na praia, carros na garagem, roupas novas, lançamentos de eletrodomésticos e eletrônicos. A conquista de bens e patrimônios era levada a sério e tida como certeza de uma vida bem sucedida. Esse legado foi passado para os Millennials e suas gerações seguintes. Aos poucos foi ganhando velocidade, desgovernou, saiu dos trilhos e se transformou no que conhecemos hoje como a supremacia do capitalismo. Porém, embora esse padrão ainda aconteça e não tenha data de validade, muitas pessoas, incluindo formadores de opinião, estão virando adeptas de um novo estilo de vida, um estilo que renuncia o TER e abraça o SER.

É a ideia de ter “menos aparência e mais essência”, que também ressalta a importância de estar consciente sobre tudo que está acontecendo – tanto de ruim quanto de bom no mundo – na tentativa de não sucumbir ao efeito manada, de não cair nas pegadinhas das indústrias de moda e beleza, de não comprar o que não é necessário, de não acreditar na vida perfeita de mídias sociais e de boicotar a exploração de qualquer ser vivo. Aproveitando esta onda de despertar social, alguns influenciadores digitais começam a mudar a forma de pensar e de se comportar perante seus públicos. Agora, além de conquistar seguidores e curtidas, eles também querem ter a capacidade de contribuir para um bem maior no Planeta Terra, de fugir do estigma criado por Umberto Eco “a internet deu voz a todos, inclusive aos idiotas”. Eles não querem ser os idiotas e, por isso, acabam por fazer uma curadoria mais consciente e inteligente de seus conteúdos.

Os exemplos atuais são muitos. Falando sobre moda, os brasileiros “Um Ano Sem Zara” e “Modices” abordam a necessidade de ter uma relação mais saudável com a indústria fashion, de ter poucas, mas boas peças dentro do guarda-roupa, além de ressaltar a real beleza do corpo e a importância do empoderamento feminino no meio dessa discussão toda. Em 2014, a americana Caroline, do blog “Unfancy”, decidiu fazer o “capsule wardrobe experiment” (experimento do armário cápsula). O que a motivou? Notar que ela tinha o armário lotado de roupas, que não tinham nada a ver com seu estilo e identidade, e ainda quebravam seu cartão de crédito. Durante 1 ano, Caroline viveu com 37 peças, escolhidas a dedo, e voltou a ser feliz novamente, enquanto compartilhou com milhares de pessoas que estilo não tem nada a ver com dinheiro e quantidade.

Esses blogs, além de fazerem com que meninos e meninas encontrem seu verdadeiro estilo e personalidade, disseminam a consciência de que o ato desenfreado de comprar impacta negativamente milhões de pessoas, além da própria natureza, que anda constantemente pedindo socorro.

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E por falar em consciência, Cristal Muniz, do blog “Um Ano Sem Lixo”, não tem foco em moda, mas na necessidade desesperadora de não produzir tanto lixo no planeta. O desafio não é fácil, pois ela propõe mudanças nas ações mais simples do dia a dia, como só fazer compras a granel e usar itens reutilizáveis, por exemplo, substituir o absorvente convencional – que demora mais de 100 anos para se decompor no meio ambiente – pelo polêmico e sustentável coletor menstrual. Mesmo desafiadoras todas as dicas são poderosas, pois mostram que o ato de “jogar fora” é o maior erro que cometemos, já que o “fora” não passa de uma grande ilusão.

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A Naturalíssima” é um blog sobre escolhas saudáveis e aborda todos os assuntos que estão “na moda”, mas nunca deveriam ter deixado de ser: comer e se vestir conscientemente, meditar, se equilibrar e procurar por um estilo de vida naturalista que não agrida ninguém e faça bem a si próprio. Marcela Rodrigues, fundadora do blog, propõe um olhar holístico “por uma vida mais simples e responsável” em todos os sentidos. Afinal, o que adianta ter os trends do mercado e não ser nada?

Além das áreas de consumo comuns, a busca pelo SER também está atualmente presente nas discussões virtuais e de como digerir o excesso de informações, likes, follows e unfollows que recebemos e perdemos todos os dias na internet. É o que fazem as idealizadoras da “Contente”, Daniela Arrais e Luiza Voll, que publicaram o trabalho “Detox Digital”, inspirado no livro “A Dieta da Informação” de Clay Johanson. Nele, elas abordam a importância de ficar offline para se conectar com seu verdadeiro eu e conseguir viver a própria vida. Afinal, em tempos de tantos digital influencers e informações, o FOMO (fear of missing out) aumenta , a ansiedade se torna crônica e a busca pelo autoconhecimento fica esquecida, sem ser classificada como prioridade. Você acaba vivendo a rotina dos outros, desejando os pertences dos outros, querendo ser os outros e esquecendo-se de viver a própria vida.

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Diante de tanta coisa vaga e opressiva, muitas vezes precisamos de uma dose de esperança e de um bom pontapé para voltar à realidade. Daí o sucesso de novos conteúdos digitais, que traçam caminhos alternativos para quem não quer deixar de fazer parte, mas faz questão de encontrar sua identidade e manifestar opinião no meio do efeito manada. Obviamente, os conteúdos que parecem grandes luminosos da Times Square “COMPRE-ME PARA SER ALGUÉM” vão continuar existindo e dando ibope, mas, quem sabe, com a ajuda dessa nova leva de influenciadores, o bichinho da consciência não começa a morder mais e mais pessoas, a fim de transformar o mundo onde vivemos em um lugar povoado por pessoas que optam SER e não TER, e que são educadas para pensar que o consumo deve servir à vida e não a vida ao consumo.