De uns anos pra cá, é clara a luta contra todos os tipos de preconceitos e tabus existentes no mundo. Alguns destes tabus são o próprio descobrimento do corpo, a nudez e o amor em suas mais variadas formas. Infelizmente, há quem nunca acatará essa liberdade tão buscada por muitos.

O fotógrafo Vitor Barão realizou o projeto Amor (a), com intuito de mostrar o amor de uma forma crua, bela, nua e livre. O projeto consiste em mostrar casais em seus momentos mais íntimos em belas fotografias.

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Vitor concedeu uma entrevista exclusiva para o Artescétera para falar mais sobre seu projeto e o que o motivou a fazê-lo. Confira abaixo e não deixe de seguir o Artescétera nas redes sociais FacebookTwitterInstagram e assine o nosso canal no Youtube clicando aqui.

Como surgiu a ideia do projeto Amor (a)?

O projeto surgiu a partir da confluência de várias idéias e vontades. Queria pensar na fotografia como diálogo entre ver e mostrar, como ferramenta de espiar. Além disso, queria desconstruir ideologias que considero nocivas através de imagens eróticas reais. Acho que a pornografia tem um poder muito grande de comunicar, e me preocupo com as mensagens frequentemente transmitidas. Quis então me apropriar desse meio para comunicar sobre igualdade, liberdade, amor e leveza, e para isso comecei a experimentar metáforas visuais com técnicas alternativas como a antotipia de amoras, que acabou inclusive dando nome ao projeto. Acho que a ligação entre amor/sexo e a cor, cheiro e sabor das amoras leva os ensaios para um lugar diferente. Estou buscando nas plantas poéticas que fortaleçam os discursos que me movem.
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Você menciona que as imagens do projeto passam por um processo com solução caseira a base de amoras. Explique pra gente um pouco deste processo e o que ele resulta na imagem.

Estou usando um processo histórico chamado Antotipia, que foi inventado e muito usado no século XIX. Ele consiste na formação de imagens pela mudança de cor que alguns pigmentos vegetais sofrem quando são degradados pela luz. É um processo que usa apenas recursos de plantas e luz, e tem características muito poéticas: as imagens ficam tênues, suaves, e são efêmeras – somem com o tempo do papel.

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A nudez ainda é considerada um tabu para muitos, mas já evoluiu muito de como era há alguns anos. Como as pessoas encaram este tipo de projeto atualmente? Você ainda enfrenta algum tipo de conservadorismo?

Acho que o modo como vemos e pensamos a nudez está mudando muito rápido. As pessoas estão se dando conta de que são donas de seus corpos e de suas imagens, e tem se divertido em mostrar de formas variadas a nudez. Ao mesmo tempo, isso faz com que a nudez fique mais frequente e comum, e reduz a magnitude do tabu. A nudez que tenho exposto tem sido muito bem recebida, chegaram a mim menos críticas do que eu imaginava que receberia. Mas nem tudo é tão bacana, algumas pessoas que posaram para o projeto enfrentaram problemas com grupos de pessoas moralistas e intolerantes. As que mais foram atacadas foram as mulheres, que sofreram com familiares e amigos julgando sua participação e cobrando valores tradicionais de “preservação da imagem”. Não tem jeito, ainda tem gente que acha que as mulheres não são donas de suas imagens e quer cobrar delas que sua nudez seja escondida.
Quanto aos casais de meninos e de meninas, não recebi absolutamente nenhum comentário negativo. Isso me deixa muito feliz, acho que ao menos as pessoas que acessam o projeto já deixaram de se cuidar da vida dos outros e entendem que o amor é sempre mais ou menos igual para qualquer pessoa.
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Os casais precisam entrar em contato para participar, o que já significa que eles estão cientes que tirarão fotos nuas e em momentos íntimos. Mas no momento do ensaio, há algum tipo de timidez por parte deles ou eles se sentem a vontade?

É impressionante como as pessoas se concentram e se soltam quando estão com seus amados em uma situação íntima. Fotografei casais muito diferentes, dos mais tímidos e recatados aos mais loucos subversivos, e no fundo, depois dos primeiros beijos, todos são iguais! Os corpos se entendem e assumem o controle da situação, o ensaio vira uma experiência de captar imagens sem ser visto. Isso me aproxima da idéia inicial de espiar. Os casais costumam relatar que se esqueceram de onde estavam, da câmera, de mim, do projeto. “Fomos longe demais? Perdemos o controle e não sei bem quando devíamos ter parado…”. Sempre respondo que não há limite!

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O amor pode ser retratado de diversas formas e você escolheu a nudez e a intimidade. Por que?

Eu acho que o amor está no campo do sensível e as roupas no campo do racional. A nudez faz aflorar visualmente o que as pessoas sentem umas pelas outras. Além disso, acho a nudez muito democrática: pelado todo mundo é igual, todo mundo é um corpo voraz revestido por uma pele quente.

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Qual o objetivo principal do projeto?

O objetivo principal é falar de amor de forma ampla. Não o amor piegas, ou a construção romântica de amor, mas o amor sensível, forte e inexplicável. Quero usar esse amor, fugaz, para unificar todo mundo e romper com estruturas de poder, preconceito e discriminação. Depois do primeiro beijo todos são iguais, homens e mulheres hetero, homo, e trans. Quero que as pessoas se atraiam pelo erótico puro, desligado de gênero, etnia, idade. E aí elas terão que repensar valores e morais, terão que repensar seus julgamentos.
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O Artescétera é um blog que defende e divulga todos os tipos de arte (música, cinema, fotografia, artes plásticas, etc). Gostaria que vocês deixassem uma mensagem defendendo o porquê a arte é tão importante (qual a diferença que ela faz) na vida das pessoas.

Acredito que a arte é capaz de comunicar pelo sensível. Os discursos artísticos tem mais poder de penetração no inconsciente e são capazes de minar pré concepções.

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