Existem diretores de cinema que todos já conhecem seu estilo. Não importa qual gênero do filme ele vai trabalhar, nós já sabemos qual “cara” a produção terá. E um destes diretores que todos já conhecemos o estilo peculiar, é o dinamarquês Lars Von Trier. Qualquer filme que o cineasta anuncia, todos os holofotes ficam mirados nele até o lançamento. Parando para analisar, qualquer filme do diretor se encaixaria na nossa coluna, mas hoje, o Filme Estranho Pra Gente Esquisita vai falar do agonizante Anticristo.

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Se você acha que quando falo “agonizante” me refiro a cenas explicitas e de mutilação, sim, eu me refiro a este tipo de cena. Porém, o filme é agonizante também por ter o ritmo muito lento, muitos diálogos, analogias, simbolismos e é de difícil entendimento.

O filme conta a história de um casal, interpretado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, que perde o filho em um acidente doméstico e vão para uma cabana no meio da floresta para tentar uma terapia informal, com a intenção de curar a profunda depressão da esposa. A situação do casal, no entanto, começa a ficar pior do que quando chegaram.

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Diferente dos usuais filmes de terror em cabanas, onde até na sinopse aparecem brechas como “coisas estranhas começam a acontecer” ou “o casal enfrenta forças malignas”, Anticristo não tem nada destes clichês, nada de sobrenatural e muito menos nada de filho do demônio e seitas diabólicas.

Agora vamos as estranhezas da produção. Primeiramente, o casal de protagonistas não tem nome, em nenhum momento do filme eles se dirigem um ao outro pelo nome. O começo do filme é (de verdade mesmo) uma das cenas mais bonitas que já vi no cinema; trata-se do casal fazendo sexo de maneira inspiradora e poética, em câmera lenta e imagem preto e branco, ao som de uma linda música clássica. O desfecho da cena inicial é a trágica morte da criança no momento em que a mulher tem um orgasmo. Será coincidência?

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Ao chegar na cabana, mais diálogos e depressão tomam conta do espectador, assim como uma cena nada convencional de uma raposa ensanguentada que fala com uma voz macabra “o caos reina” (uma das cenas mais WTF que vi na vida). E são nos diálogos que temos que prestar atenção.

Em certo momento, o homem descobre que a mulher já esteve na cabana, com o filho, para escrever a tese de seu mestrado sobre misoginia e, em suas anotações, percebe a diferença da letra da mulher no decorrer destas anotações, até se tornar quase ilegível. Ele também descobre através de fotos, que seu filho tinha um dos pés deformado e usava, desde pequeno, os sapatos ao contrário.

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E é no último ato que o filme começa a causar mais tensão, quando a mulher se “revolta” contra o marido e começa a machucá-lo e machucá-la a si própria.

Von Trier quis criar um clima tenso e subjetivo para o filme. Ao terminar, muitas perguntas ficam na cabeça como “Por que Anticristo se não tem demônios?”, “Por que a mulher se rebela contra o marido?”, “Quem é o Anticristo?”, “O diretor é misógino?”. Para quem assiste o filme com muita atenção, sabe a resposta destas perguntas. Quem acompanha o blog, sabe que não faço analogia dos filmes entregando detalhes e desfechos, apenas falo um pouco sobre ele para despertar a curiosidade de assisti-los.

Como sempre, a fotografia dos filmes de Lars é impecável, assim como as atuações. Anticristo é um filme que, mesmo parado, é muito tenso e deixa no ar muitas coisas. Mas definitivamente é um filme que, mesmo que você tape os olhos em determinadas cenas, precisa ser assistido, não como um filme de terror ou drama, mas sim, como aquele filme que te faz pensar em como o cinema é amplo e tem espaço para as mais doentias (ou geniais) mentes. Não deixe de acompanhar o Artescétera nas redes socias Facebook, Twitter e Instagram.